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A Família Com Deus Pela Hipocrisia

A FAMÍLIA COM DEUS PELA HIPOCRISIA
LEOPOLDO REZENDE
O algoritmo do Facebook de algum modo nos proporciona uma certa paz de espírito. Ao distanciar minimamente da minha bolha virtual, as questões sobre justiça social e até mesmo a mais elementar empatia humana desaparecem cedendo lugar, quando não ao ódio, à hipocrisia. “O que há de errado em os deputados dedicarem seus votos às suas famílias, aos seus filhos e a Deus?” Perguntam aqueles que compactuaram com o moralismo hipócrita presente no rito do impeachment. Bom, os deputados só se esqueceram de dedicar o voto do “Sim” às acompanhantes de luxo, aos filhos bastardos, aos lobistas mais íntimos… situações típicas em Brasília. Mas isso implicaria estender o conceito de família, não é mesmo?! Algo que geraria um conflito moral de extrema grandeza para os parlamentares (!) e talvez, por isso, seja melhor manter as coisas como estão.

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O boicote editorial e o preconceito contra o autor nacional

O BOICOTE EDITORIAL AO AUTOR NACIONAL
RUBENS FRANCISCO LUCCHETTI
Desde muito cedo, tive inclinação para a escrita. E, num dia do final de 1944 (foi numa das minhas últimas aulas que tive no antigo curso primário), a professora perguntou aos alunos o que queriam ser quando crescessem. Fui a única nota destoante da classe. Todos respondiam: médico, dentista, advogado, enfermeira, professora etc. Fui o único que disse que desejava escrever. Vi os risinhos dos colegas, o ar de mofa da professora. Mas não me dobrei. Segui o meu sonho. Na verdade, sigo até hoje esse sonho.
Não é nada fácil ser autor em nosso país e ver seu livro publicado.
As grandes editoras só se interessam pelos medalhões (ou então por livros de auto-ajuda) ou por livros traduzidos (best-sellers que já vêm com propaganda feita em seus países de origem).

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A Crítica Necessária À Autoridade Do Editor

O Homem Que Lutou Para Aceitar O Original De Um Novato — Ou A Crítica Necessária À Autoridade Do Editor
LUIZ SCHWARCZ
A relação entre os escritores e seus editores poderia render um blog exclusivo, monotemático. Não chegarei a tanto, mas pretendo explorar o assunto em vários posts. O tema é complexo, pode ser abordado por vários ângulos. Dedicação, lealdade e amizade que em muitos casos sedimentaram o trabalho compartilhado entre autores e editores são fonte de muitas histórias edificantes, que poderiam servir de incentivo a jovens que desejam se tornar profissionais do livro. Com maior divulgação, a história da relação de Max Perkins com seus principais escritores certamente atrairia muita gente ao mundo das editoras. Perkins foi o editor da Scribner, casa que descobriu e acompanhou as carreiras de F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Tom Wolfe, entre muitos outros. Mas o mercado hoje tem condições muito diversas daquelas que vigiam no mundo editorial americano da primeira metade do século passado.

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Pelo Direito da Mulher ao seu Corpo

BEAUVOIR E A LEGALIZACÃO DO ABORTO
SIMONE DE BEAUVOIR
[Excerto da obra “O Segundo Sexo”] – Importante: esta exposição de seu pensamento sobre a mulher data dos anos 1940 (a obra foi escrita a partir de meados dessa década e publicada em 1949), o que atesta o entrave evolutivo de 76 anos, ocorrido no Brasil, que vem impedindo a imprescindível Legalização do Aborto, haja vista seu caráter de questão de saúde pública.
A MÃE
É pela maternidade que a mulher realiza integralmente seu destino fisiológico; é a maternidade sua vocação “natural”, porquanto todo o seu organismo se acha voltado para a perpetuação da espécie. Mas já se disse que a sociedade humana nunca é abandonada à natureza. E, particularmente, há um século, mais ou menos, a função reprodutora não é mais comandada pelo simples acaso biológico; é controlada pela vontade.

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“Ciência Política”: Mais Política, Menos Ciência

ERIK HAAGENSEN GONTIJO
No dia 21 de dezembro de 2015, Chico Buarque foi abordado numa rua do Leblon por ostrogodos antipetistas que, aos latidos, o afrontaram por seu posicionamento pró-PT e por possuir um apartamento em Paris.
Um deles grita que “o PT é bandido”, no que Chico retruca: “Acho que o PSDB é bandido, e agora? /…/ Procure se informar mais, com base na revista Veja você não irá muito longe”.
A partir da repercussão desse fato, um professor de ciência política da PUC-SP afirmou, em artigo publicado na revista Carta Maior (edição de 28 de dezembro), que a fala de Chico Buarque simplesmente “barrou a suposta moralidade golpista”:

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Afinal… Quem é Simone de Beauvoir?

Simone de Beauvoir, em suas memórias, nos dá a conhecer sua vida e sua obra. Quatro volumes foram publicados entre 1958 e 1972: Memórias de uma moça bem comportada, A força da idade, A força das coisas e Balanço final. A estes, se uniu a narrativa Uma morte muito suave, de 1964. A ampliação desse empreendimento autobiográfico encontra sua justificativa numa contradição essencial ao escritor: a impossibilidade de escolher entre a alegria de viver e a necessidade de escrever; de um lado, o esplendor do contingente, do outro, o rigor salvador. Fazer da própria existência o objeto de sua obra, em parte, solucionar um dilema.

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Walter Benjamin (Parte III)

A OBRA DE ARTE
NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA (Parte III)
WALTER BENJAMIN
XII
A reprodutibilidade técnica da obra de arte altera a relação das massas com a arte. Reaccionárias, diante, por exemplo, de um Picasso, transformam-se nas mais progressistas frente a um Chaplin. O comportamento progressista é caracterizado pelo facto do prazer do espectáculo e da vivência nele suscitar uma ligação íntima e imediata com a atitude do observador especializado. Tal ligação é um indício social importante. Porque quanto mais o significado social de uma arte diminui, tanto mais se afastam no público as atitudes, críticas e de fruição – como reconhecidamente se passa com a pintura. O convencional é apreciado acriticamente e o que é verdadeiramente novo é criticado com aversão. No cinema, coincidem as atitudes críticas e de fruição do público. Neste caso, a circunstância decisiva é que em nenhum outro lugar, como no cinema, a reacção maciça do público, constituída pela soma da reacção de cada de um dos indivíduos, é condicionada à partida pela audiência em massa. À medida que essas reacções se manifestam, o público controla-as. A comparação com a pintura continua a ser útil. A pintura sempre foi apresentada para ser vista por uma, ou algumas pessoas. A observação simultânea de pinturas, por parte de um grande público, como sucede no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura que, não só através da fotografia, mas também de modo relativamente independente dela, foi desencadeada pela pretensão da obra de arte, a dirigir-se às massas.

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Walter Benjamin (Parte II)

A OBRA DE ARTE
NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA (Parte II)
WALTER BENJAMIN
V
A recepção da arte verifica-se com diversas tónicas, quais se destacam duas, polares. Uma assenta no valor culto, a outra no valor de exposição da obra de arte10;11. A produção artística começa por composições ao serviço do culto. E lícito supor-se que estas composições sejam mais importantes pela sua existência do que pelo facto de serem vistas. O alce representado pelo homem da idade da pedra, nas paredes das suas cavernas, é um instrumento mágico. É certo que ele o expõe perante os outros homens, mas é principalmente dedicado aos espíritos. Hoje o valor de culto parece requerer que a obra de arte permaneça oculta: certas estátuas de deuses só são acessíveis ao sacerdote na sua cela, certas virgens permanecem cobertas durante quase todo o ano, determinadas esculturas em catedrais medievais não são visíveis observador que está no plano térreo.

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Walter Benjamin (Parte I)

A OBRA DE ARTE
NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA (*)
WALTER BENJAMIN
As nossas belas-artes foram instituídas e os seus tipos e usos fixados numa época que se diferencia decisivamente da nossa, por homens cujo poder de acção sobre as coisas era insignificante quando comparado com o nosso. Mas o extraordinário crescimento dos nossos meios, a capacidade de adaptação e exactidão que atingiram, as ideias e os hábitos que introduzem anunciam-nos mudanças próximas e muito profundas na antiga indústria do Belo. Em todas as artes existe uma parte física que não pode continuar a ser olhada nem tratada como outrora, que já não pode subtrair-se ao conhecimento e potência modernos. Nem a matéria, nem o espaço, nem o tempo são desde há vinte anos o que foram até então. E de esperar que tão grandes inovações modifiquem toda a técnica das artes, agindo, desse modo, sobre a própria invenção, chegando talvez mesmo a modificar a própria noção de arte em termos mágicos.
Paul Valéry: Pièces sur l’art. Paris (s. data) pp. 103/104 (‘La conquête de l’ubiquité”).

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Modernidade e Pós-Modernismo: Continuidade ou Ruptura?

Modernidade e Pós-Modernismo: Continuidade ou Ruptura?
GUSTAVO HENRIQUE LOPES MACHADO
Nos últimos tempos se tem feito muito alarde em torno do termo pós-moderno. As interpretações vão desde aqueles pensadores que veem no mundo após a segunda grande guerra, ou pelo menos desde o maio francês, uma nova forma de organização social, um novo período histórico, comumente designado de sociedade pós-industrial ou de pós-modernidade, até àqueles que veem no pós-modernismo uma mera corrente literária fora de moda. Em outras palavras, a questão gira em torno de se existe ou não uma ruptura entre o mundo contemporâneo e o que se convencionou chamar de modernidade.